terça-feira, 13 de maio de 2008

Então subitamente olhou com desgosto para tudo como se tivesse comido demais daquela mistu­ra. "Oi, oi, oi...", gemeu baixinho cansada e de­pois pensou: o que vai acontecer agora agora agora? E sempre no pingo de tempo que vinha nada acon­tecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer, compreende? Afastou o pensamento difícil distraindo-se com um movimento do pé descalço no assoalho de madeira poeirento. Esfregou o pé espiando de través para o pai, aguardando seu olhar impaciente e nervoso. Nada veio porém. Nada. Difícil aspirar as pessoas como o aspirador de pó.— Papai, inventei uma poesia.— Como é o nome?— Eu e o sol. — Sem esperar muito recitou:— "As galinhas que estão no quintal já comeram duas minhocas mas eu não vi".— Sim? Que é que você e o sol têm a ver com a poesia?Ela olhou-o um segundo. Ele não compreende­ra...— O sol está em cima das minhocas, papai, e eu fiz a poesia e não vi as minhocas... — Pausa.— Posso inventar outra agora mesmo: "Ó sol, vem brincar comigo". Outra maior:"Vi uma nuvem pequena coitada da minhoca acho que ela não viu".— Lindas, pequena, lindas. Como é que se faz uma poesia tão bonita?— Não é difícil, é só ir dizendo.

(Perto do coração selvagem, Editora Nova Fronteira, 7ª edição, 1980)