
Sentado no meio-fio de uma rua muito perto de casa, pensava nela enquanto tomava um gole do café amargo comprado na padaria da esquina. Era cedo, ele se sentia cansado, tão cansado de fingir. O café espantava um pouco o efeito da vodca, que ele mesmo apelidara de "poção do esquecimento". Naquela noite, se perdeu de si mesmo, aquelas 4 ou 5 horas de fingimento o fizeram esquecer por um momento que ela dormia em paz, em algum lugar da cidade, nos braços de outro.
Em meio a dança desenfreada, tentativa de exorcizar a dor, sentiu o gosto de outras bocas. Sentiu quadris estreitarem-se aos seus, mãos que lhe acariciaram a nuca, línguas, dentes e coxas. Sentiu isso tudo e não apreciou absolutamente nada.
Seu coração clamava por ela, em sua mente só havia espaço para a imagem dela, seu corpo só ardia quando encontrava o dela. Olhou para céu e viu que lá longe a lua ainda brilhava, o céu ainda escuro o encorajou a desafogar a alma e assim, chorou. Chorou como nunca havia chorado.
E apesar de tudo, a lembrança dela ainda era a mais querida, seus olhos melancólicos, suas palavras doces, seus dedos a conduzirem o desejo que vinha dele. Não era sua culpa, não era culpa dela, o que os destruiu foi maior do que eles, foi maior do que o amor dele por ela. O que os destruiu foi a possibilidade da unilateralidade que a afastou dele e que ele não soube afastar.
A culpa era dele, a culpa era dela, afinal. E no final, não há mesmo culpados. Há a vida dele e a vida dela, separadas.
Há a vida, pensou.
Vida que segue.
Um comentário:
um gole de azedume com gelo de melancolia, culpa da monotonia!
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