
Ao te encontrar hoje, mal acreditei que realmente nos conhecíamos, foi como se a estivesse vendo pela primeira vez. Por tanto tempo senti medo desse encontro, sonhava com o teu rosto todas as noites, mas não me agradava à possibilidade de vê-la novamente. Se te encontrasse mais feliz do que eu, me sentiria rejeitado, derrotado e especialmente mal amado. E se você estivesse sofrendo tanto ou mais do que eu, me sentiria incapaz, um fracasso e um monstro a lhe infligir uma dor que não mereces.
A surpresa do encontro não foi assim tão penosa, na realidade foi até bem agradável te ver descendo a rua com aquele andar que eu tanto admirei. Me lembro de quando você vinha ao meu encontro, apressada, pois sempre se atrasava e eu parado a observar a tua maneira tão graciosa de andar, os braços a se mover, o cabelo balançando e aquele sorriso que se abria ao me ver iluminando tudo ao meu redor. O mesmo sorriso que eu vi hoje e que, no entanto parecia tão diferente.
Faz calor na cidade e você vestia aquele vestido azul que eu costumava odiar. Estava tão linda, de tirar o fôlego realmente e a única coisa que eu percebia antes era o quanto as suas curvas eram ressaltadas por ele. Entendi que te castrei com meus ciúmes e neuroses e na tentativa de compensar alguma coisa pensei em elogiar a sua beleza quando você se aproximasse.
Fiquei parado a esperar que me reconhecesse e sua memória não falhou. Chegou perto, sorriu com sinceridade e disse meu nome com uma alegria que parecia genuína. Não respondi, apenas sorri de volta e a abracei. Pensei em lhe dizer que senti saudades do seu abraço, mas me calei. Perguntei se tudo andava bem, você me contou do novo emprego, do carro que quebrou e que havia conseguido passar na prova do mestrado. Eu respondi que sempre acreditei em você, não duvidei por um minuto e sabia que você entendeu que naquele momento eu estava sendo o mais honesto possível.
Conversamos por alguns minutos como velhos amigos que se encontram casualmente e percebem a falta que um faz na vida do outro. Você quis saber mais sobre minha vida, eu contei que hoje tenho um cachorro que se chama Hades e finalmente montei meu próprio escritório. Sorriu e respondeu que se sentia orgulhosa de ver que eu havia mudado. Ao fim de vinte minutos, se despediu e foi embora enquanto eu te observava ir mais uma vez. Talvez, a última.
Voltei pra casa me sentindo mais feliz. Você ainda tem aqueles olhos sedutores, cheios de promessa e verdade. Você ainda me é querida e sempre será uma doce lembrança que acalentarei em dias tristes, mas como tudo na vida, nós passamos. Você se foi e eu fiquei. Tudo que me resta agora é um retrato do seu rosto que desenhei naquela tarde e enterrei em uma gaveta. Para nunca esquecer daquela que deu um presente tão delicado e bonito: uma possibilidade de amor.
Um comentário:
foi o passarinho azul que contou que o amor poderia existir? ela não engana...
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