quinta-feira, 3 de março de 2011

Passarinho



Ao te encontrar hoje, mal acreditei que realmente nos conhecíamos, foi como se a estivesse vendo pela primeira vez. Por tanto tempo senti medo desse encontro, sonhava com o teu rosto todas as noites, mas não me agradava à possibilidade de vê-la novamente. Se te encontrasse mais feliz do que eu, me sentiria rejeitado, derrotado e especialmente mal amado. E se você estivesse sofrendo tanto ou mais do que eu, me sentiria incapaz, um fracasso e um monstro a lhe infligir uma dor que não mereces.

A surpresa do encontro não foi assim tão penosa, na realidade foi até bem agradável te ver descendo a rua com aquele andar que eu tanto admirei. Me lembro de quando você vinha ao meu encontro, apressada, pois sempre se atrasava e eu parado a observar a tua maneira tão graciosa de andar, os braços a se mover, o cabelo balançando e aquele sorriso que se abria ao me ver iluminando tudo ao meu redor. O mesmo sorriso que eu vi hoje e que, no entanto parecia tão diferente.

Faz calor na cidade e você vestia aquele vestido azul que eu costumava odiar. Estava tão linda, de tirar o fôlego realmente e a única coisa que eu percebia antes era o quanto as suas curvas eram ressaltadas por ele. Entendi que te castrei com meus ciúmes e neuroses e na tentativa de compensar alguma coisa pensei em elogiar a sua beleza quando você se aproximasse.

Fiquei parado a esperar que me reconhecesse e sua memória não falhou. Chegou perto, sorriu com sinceridade e disse meu nome com uma alegria que parecia genuína. Não respondi, apenas sorri de volta e a abracei. Pensei em lhe dizer que senti saudades do seu abraço, mas me calei. Perguntei se tudo andava bem, você me contou do novo emprego, do carro que quebrou e que havia conseguido passar na prova do mestrado. Eu respondi que sempre acreditei em você, não duvidei por um minuto e sabia que você entendeu que naquele momento eu estava sendo o mais honesto possível.

Conversamos por alguns minutos como velhos amigos que se encontram casualmente e percebem a falta que um faz na vida do outro. Você quis saber mais sobre minha vida, eu contei que hoje tenho um cachorro que se chama Hades e finalmente montei meu próprio escritório. Sorriu e respondeu que se sentia orgulhosa de ver que eu havia mudado. Ao fim de vinte minutos, se despediu e foi embora enquanto eu te observava ir mais uma vez. Talvez, a última.

Voltei pra casa me sentindo mais feliz. Você ainda tem aqueles olhos sedutores, cheios de promessa e verdade. Você ainda me é querida e sempre será uma doce lembrança que acalentarei em dias tristes, mas como tudo na vida, nós passamos. Você se foi e eu fiquei. Tudo que me resta agora é um retrato do seu rosto que desenhei naquela tarde e enterrei em uma gaveta. Para nunca esquecer daquela que deu um presente tão delicado e bonito: uma possibilidade de amor.

terça-feira, 1 de março de 2011

Azedume


Sentado no meio-fio de uma rua muito perto de casa, pensava nela enquanto tomava um gole do café amargo comprado na padaria da esquina. Era cedo, ele se sentia cansado, tão cansado de fingir. O café espantava um pouco o efeito da vodca, que ele mesmo apelidara de "poção do esquecimento". Naquela noite, se perdeu de si mesmo, aquelas 4 ou 5 horas de fingimento o fizeram esquecer por um momento que ela dormia em paz, em algum lugar da cidade, nos braços de outro.
Em meio a dança desenfreada, tentativa de exorcizar a dor, sentiu o gosto de outras bocas. Sentiu quadris estreitarem-se aos seus, mãos que lhe acariciaram a nuca, línguas, dentes e coxas. Sentiu isso tudo e não apreciou absolutamente nada.
Seu coração clamava por ela, em sua mente só havia espaço para a imagem dela, seu corpo só ardia quando encontrava o dela. Olhou para céu e viu que lá longe a lua ainda brilhava, o céu ainda escuro o encorajou a desafogar a alma e assim, chorou. Chorou como nunca havia chorado.
E apesar de tudo, a lembrança dela ainda era a mais querida, seus olhos melancólicos, suas palavras doces, seus dedos a conduzirem o desejo que vinha dele. Não era sua culpa, não era culpa dela, o que os destruiu foi maior do que eles, foi maior do que o amor dele por ela. O que os destruiu foi a possibilidade da unilateralidade que a afastou dele e que ele não soube afastar.
A culpa era dele, a culpa era dela, afinal. E no final, não há mesmo culpados. Há a vida dele e a vida dela, separadas.
Há a vida, pensou.
Vida que segue.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

"...o destino sempre me quis só."





Era confortável olhar naqueles olhos que lhe sorriam enquanto contavam uma história, dividindo com ela mais um pedaço de sua vida. Aquela vida que lhe era tão preciosa.
Ela ainda não tinha se dado conta disso até aquele ponto. Entre os olhares, os risos, os detalhes e o amor, ainda não lhe havia tomado a mente com a grandeza necessária a certeza apaixonada da importância dele para ela.
Aproveitou cada segundo, cada segredo trocado, cada toque e cada sorriso. Especialmente os sorrisos. Pensou no quanto ansiava por esses momentos quando longe dele, em como ele invadia seus pensamentos de assalto, naquela reviravolta que seu estômago dava toda vez em que a figura dele se aproximava. E pensou também em como lhe era penoso dividir a sua presença com outros, não poder lhe abraçar quando quisesse, esperar pelos carinhos dele que nem sempre viam quando precisava.
Foi pra casa, mas ao invés de estar mais leve após o encontro tão desejado, sentia um peso. O famoso peso da falta de reciprocidade.
Em casa, chorou. Pensou em quantas vezes se sentira tão confortável com outros que não lhe devotaram o mesmo querer. Chorou mais uma vez.
Era a amiga de novo e estava adiando mais uma vez o desejo de ter um ombro para se apoiar nos dias calmos ou nas turbulências.
Parou de chorar.

Merda de vida amorosa!