
"(...) guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo."
(Caio Fernando Abreu)
Doses homeopáticas de desejo, carne, pele. Um revertério gostoso no estômago, tão diferente das famosas borboletas, pois não era um gostar transcendental. Era apreço. E querer. Querer tomar pra si aquele outro ser e se misturar num balanço musical de carinhos e sentimentos prazerosos. Coisas que a lembravam que não estava morta, que existia dentro dela aquela fúria reprimida das mães-mulheres, mulheres-esposas, daquelas que não podiam se desvencilhar de suas gaiolas douradas, bonecas imutáveis, modelos irreparáveis. Tudo o que ela nunca seria.
Mas havia o temor de que em breve, a vontade de estar ali, na companhia do outro desejado se transformasse em algo maior. Em algo que dói. Em algo que ela não queria. Que ela não conhecia direito. Que não se apresentara direito em nenhum momento de sua vida. Em algo que faz falta.
E isso tudo não acontecia bem no plano real, muito mais dentro dela. Não havia nada de concreto, a não ser por aquela tensão que pode ou não ser desvendada, descoberta, como quando se mata a sede por muito sentida. Era a presença daqueles olhos que despertava tudo isso. E o toque das mãos, por vezes acidental, outras vezes nem tanto. Uma vez houve um par e uma dança interminável. Um giro que girou o mundo dela.
Ao certo, nem ela sabe se os limites foram cruzados (por ela) e se as doses homeopáticas já não são mais suficientes, pois as borboletas moram em seu estômago agora. Talvez ela saiba, mas dói demais admitir, mesmo que seja apenas para seu travesseiro, quase sempre molhado de lágrimas salgadas.
É melhor seguir a caminhada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário