
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui."
(Legião Urbana)
Tinha um jeito assim meio misterioso de ser, expressões que não denunciavam nenhum dos pensamentos que perturbavam sua cabeça e um andar de quem já cansou de perambular em vão pelas ruas da cidade sempre cinza. Os ombros não eram caídos (o que alguns diriam ser efeito de um pedantismo inato), mas os olhos, apesar de não admitirem muito do que se passava com ele, mostravam que ali enterrada em seu coração, morava um tipo de tristeza mórbida e traidora. Apesar de tudo, mal saíra da adolescência, estava na casa dos vinte anos e se sentia com mais de cem.
O que mais incomodava era não conseguir atribuir algum sentido à vida. Sentia que não pertencia àquele mundo onde tudo que defendia era condenável ou aparentemente (apesar de não verdadeiramente) descartável. E não pertencia mesmo à corja de materialistas e superficiais que habitam o orbe planetário. Ele era diferente, se encontrava no nível dos indagadores, das mentes que pensam e por isso se sentia cansado dos efeitos que as conclusões acerca da realidade produziam nele.
Tristeza, depressão, fadiga. Queria poder encontrar repouso em braços amigos, serenidade em um sorriso, mas reconhecia que a falta de traquejo social impedia que alguém tentasse quebrar a couraça que ele mesmo criou em volta de si. Esse não-pertencer ao mundo, às coisas, à realidade era como uma faca permanentemente cravada em seu peito, impedindo seu coração de bater.
De certa forma, alguma culpa tinha nisso tudo, admitia que a constante percepção do negativo havia lhe cegado de tal forma que agora não se permitia ver o belo. No entanto, o que era bom, o antídoto para toda aquela agonia cabia dentro da caixinha que ele chamava de coração. Bastava um impulso para que seu despertar acontecesse, mas ele não via isso. Ninguém é capaz de enxergar quando o remédio para sua doença é você mesmo.
Escondida em suas lágrimas estava a resposta para seus anseios e tal resposta recebe o nome de aprendizado. Com o tempo, as expectativas da mocidade foram dando lugar às certezas da maturidade. O menino deu lugar ao homem e a necessidade de calor lhe tomou o ser. Ele se permitiu crescer, amar e até colher os frutos das decepções.
Sua paz lhe alcançou quando ele quis ao perceber que os percalços ruins da vida assim como os momentos de alegria são efêmeros. O que fica é somente o que construímos no durante. Seus olhos mudaram, não continham mais o retrato da melancolia, eram agora confiantes, cheios daquele brilho que não se rouba, pois é conquista do ser.
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