terça-feira, 5 de setembro de 2017

Aching

Eu tenho uma dor que me dói feito punhal cravado no peito.
Essa dor que me faz escrever um verso clichê desses.
Eu tenho essa dor e essa dor me tem.
É que a perda é assim: disforme e latente.
Cheia de ruído, mas é um barulho que às vezes faz poesia.
E às vezes faz morte.
Eu tenho essa dor que ontem fez minha visão virar mar.
Eu tenho essa dor e essa dor me tem porque não tenho mais ela.
Eu tenho essa dor e essa dor me faz outra pessoa.
Eu tenho essa dor e ela até me fez voltar a escrever.
Eu tenho essa dor e essa dor tem o tempo para se emudecer.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

wandering, but not lost.




Acordei sentindo a droga da cabeça doer novamente. E ouvindo as palavras daquela mulherzinha ecoarem como um som infinito nos meus ouvidos: "Levanta, garota! Seu pai faz tanto por você e nem ao menos gratidão recebemos de volta! Acorda! Quem mandou ficar na esbórnia ontem, hoje é dia de branco!"

É, beber em um domingo nem é sempre é uma boa ideia. Chegar em casa às 4h30 da manhã tendo que acordar uma hora depois para ir à aula menos ainda. O que dizer então da minha madrasta digna de contos de fadas da Disney? Acho que ela vai ressentir para sempre o fato de nunca ter podido engravidar do meu pai e eu sou a grande prova de que o problema (ah, o problema!) é inteiramente dela.

Minha mãe morreu jovem, mal havia completado cinco anos de casada com meu pai e se foi. Eu tinha dois anos, não lembro dela e não faço questão de lembrar. Todos aqueles clichês femininos nunca serão aplicáveis a mim. Eu sou bruta por natureza, por isso prefiro me agarrar ao que tenho, um pai omisso, uma madrasta neurótica e Jack. Digo, Jack Daniels. Não se engane, não tenho a mínima pretensão de fazer você chorar com minha história, detesto quem se coloca na posição de vítima. Eu sou disfuncional, por natureza.

Um dia sei que contarei histórias de tempos em que vivi em outros lugares, tempos de cupcakes pela manhã, pubs à noite, tempos de passeios venezianos, tempos de garoas londrinas, tempos longe, tempos de risos, tempos melhores. Por enquanto, essa sou, bêbada numa segunda-feira. Às vezes me pergunto se Freud teria a coragem de me definir, qual seria a força motriz (lê-se problema sexual) que desencadeia todos os meus problemas? Seria eu uma Electra e todo meu comportamento auto-destrutivo só uma forma de chamar a atenção de meu pai ou seria eu apenas uma lésbica de armário?

Bom, lésbica é verdade. De armário não. Há muito tempo aprendi a apreciar os prazeres femininos, a pele suave, as bocas vermelhas e as pernas. Ah, as pernas...Opa, melhor papai não ler isso. Acho que ele ainda sonha com netinhos. Certamente, Foucault diria que eu eu sou uma pessoa com potencial para institucionalização.

Eu me imagino presa em uma instituição, todo aquele drama vitoriano talvez me fizesse bem ou me matasse de vez. Uma coisa ou outra, tanto faz, não tem ninguém para tomar nota do que me acontece mesmo. Só eu e minha solidão. Eu e meus conflitos. Eu.

E me alimento de meus livros, minha música, toda a poesia que eles detêm. Sigo contando minha a vida a quem quiser ouvir porque um dia eu li que "It is far harder to kill a phantom than a reality"*. É por isso que eu conto minha realidade para que um dia, eu mesma, possa matá-la.



* "É muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade."
(Virginia Woolf in Professions for women)

Entrelinhas

- Ah, senta, vou passar um café. Faz tanto tempo que a gente não se vê (e você faz tanta falta). Senta que ainda temos tempo. (Senta que hoje eu te tenho pra mim.)

- Não sei se posso ficar muito tempo (me sinto mal por ter te deixado), mas você sabe que precisamos conversar sobre as coisas que tem acontecido. Risos. (E eu tento te dizer o quanto eu preciso de você).


quinta-feira, 3 de março de 2011

Passarinho



Ao te encontrar hoje, mal acreditei que realmente nos conhecíamos, foi como se a estivesse vendo pela primeira vez. Por tanto tempo senti medo desse encontro, sonhava com o teu rosto todas as noites, mas não me agradava à possibilidade de vê-la novamente. Se te encontrasse mais feliz do que eu, me sentiria rejeitado, derrotado e especialmente mal amado. E se você estivesse sofrendo tanto ou mais do que eu, me sentiria incapaz, um fracasso e um monstro a lhe infligir uma dor que não mereces.

A surpresa do encontro não foi assim tão penosa, na realidade foi até bem agradável te ver descendo a rua com aquele andar que eu tanto admirei. Me lembro de quando você vinha ao meu encontro, apressada, pois sempre se atrasava e eu parado a observar a tua maneira tão graciosa de andar, os braços a se mover, o cabelo balançando e aquele sorriso que se abria ao me ver iluminando tudo ao meu redor. O mesmo sorriso que eu vi hoje e que, no entanto parecia tão diferente.

Faz calor na cidade e você vestia aquele vestido azul que eu costumava odiar. Estava tão linda, de tirar o fôlego realmente e a única coisa que eu percebia antes era o quanto as suas curvas eram ressaltadas por ele. Entendi que te castrei com meus ciúmes e neuroses e na tentativa de compensar alguma coisa pensei em elogiar a sua beleza quando você se aproximasse.

Fiquei parado a esperar que me reconhecesse e sua memória não falhou. Chegou perto, sorriu com sinceridade e disse meu nome com uma alegria que parecia genuína. Não respondi, apenas sorri de volta e a abracei. Pensei em lhe dizer que senti saudades do seu abraço, mas me calei. Perguntei se tudo andava bem, você me contou do novo emprego, do carro que quebrou e que havia conseguido passar na prova do mestrado. Eu respondi que sempre acreditei em você, não duvidei por um minuto e sabia que você entendeu que naquele momento eu estava sendo o mais honesto possível.

Conversamos por alguns minutos como velhos amigos que se encontram casualmente e percebem a falta que um faz na vida do outro. Você quis saber mais sobre minha vida, eu contei que hoje tenho um cachorro que se chama Hades e finalmente montei meu próprio escritório. Sorriu e respondeu que se sentia orgulhosa de ver que eu havia mudado. Ao fim de vinte minutos, se despediu e foi embora enquanto eu te observava ir mais uma vez. Talvez, a última.

Voltei pra casa me sentindo mais feliz. Você ainda tem aqueles olhos sedutores, cheios de promessa e verdade. Você ainda me é querida e sempre será uma doce lembrança que acalentarei em dias tristes, mas como tudo na vida, nós passamos. Você se foi e eu fiquei. Tudo que me resta agora é um retrato do seu rosto que desenhei naquela tarde e enterrei em uma gaveta. Para nunca esquecer daquela que deu um presente tão delicado e bonito: uma possibilidade de amor.

terça-feira, 1 de março de 2011

Azedume


Sentado no meio-fio de uma rua muito perto de casa, pensava nela enquanto tomava um gole do café amargo comprado na padaria da esquina. Era cedo, ele se sentia cansado, tão cansado de fingir. O café espantava um pouco o efeito da vodca, que ele mesmo apelidara de "poção do esquecimento". Naquela noite, se perdeu de si mesmo, aquelas 4 ou 5 horas de fingimento o fizeram esquecer por um momento que ela dormia em paz, em algum lugar da cidade, nos braços de outro.
Em meio a dança desenfreada, tentativa de exorcizar a dor, sentiu o gosto de outras bocas. Sentiu quadris estreitarem-se aos seus, mãos que lhe acariciaram a nuca, línguas, dentes e coxas. Sentiu isso tudo e não apreciou absolutamente nada.
Seu coração clamava por ela, em sua mente só havia espaço para a imagem dela, seu corpo só ardia quando encontrava o dela. Olhou para céu e viu que lá longe a lua ainda brilhava, o céu ainda escuro o encorajou a desafogar a alma e assim, chorou. Chorou como nunca havia chorado.
E apesar de tudo, a lembrança dela ainda era a mais querida, seus olhos melancólicos, suas palavras doces, seus dedos a conduzirem o desejo que vinha dele. Não era sua culpa, não era culpa dela, o que os destruiu foi maior do que eles, foi maior do que o amor dele por ela. O que os destruiu foi a possibilidade da unilateralidade que a afastou dele e que ele não soube afastar.
A culpa era dele, a culpa era dela, afinal. E no final, não há mesmo culpados. Há a vida dele e a vida dela, separadas.
Há a vida, pensou.
Vida que segue.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

"...o destino sempre me quis só."





Era confortável olhar naqueles olhos que lhe sorriam enquanto contavam uma história, dividindo com ela mais um pedaço de sua vida. Aquela vida que lhe era tão preciosa.
Ela ainda não tinha se dado conta disso até aquele ponto. Entre os olhares, os risos, os detalhes e o amor, ainda não lhe havia tomado a mente com a grandeza necessária a certeza apaixonada da importância dele para ela.
Aproveitou cada segundo, cada segredo trocado, cada toque e cada sorriso. Especialmente os sorrisos. Pensou no quanto ansiava por esses momentos quando longe dele, em como ele invadia seus pensamentos de assalto, naquela reviravolta que seu estômago dava toda vez em que a figura dele se aproximava. E pensou também em como lhe era penoso dividir a sua presença com outros, não poder lhe abraçar quando quisesse, esperar pelos carinhos dele que nem sempre viam quando precisava.
Foi pra casa, mas ao invés de estar mais leve após o encontro tão desejado, sentia um peso. O famoso peso da falta de reciprocidade.
Em casa, chorou. Pensou em quantas vezes se sentira tão confortável com outros que não lhe devotaram o mesmo querer. Chorou mais uma vez.
Era a amiga de novo e estava adiando mais uma vez o desejo de ter um ombro para se apoiar nos dias calmos ou nas turbulências.
Parou de chorar.

Merda de vida amorosa!

domingo, 30 de janeiro de 2011


Fazia muito tempo que aquele gosto estava em sua boca. O amargo do álcool que se misturava e se integrava àquele gosto de decepção.

Duas pedras de gelo quebrando o silêncio ao se espatifarem no copo.

Jurou que seria seu último copo, olhou o relógio, sentiu aquela falta que a levara a tocar naquela garrafa mais uma vez. Onde está ele? Onde está aquele que um dia prometeu estar ali? Onde está aquela alma, gêmea nos desejos e nas vontades? Por que agora se tornara tão difícil encaixar seu corpo ao dele e sentir como se nada mais importava?
Era um desperdício, pensou. Toda aquela rotina e a falta do que almejar.
A aparente perfeição das coisas, aquele apartamento limpo, claro, bem arrumado. O carro estacionado na garagem, a viagem programada, todos os sorrisos amarelos e a falsa harmonia que transpareciam.

Parecia que aquela indiferença machucava muito mais do que os gritos e o pranto desesperado que serviram de ponte ao estado atual das coisas. As súplicas, os pedidos de perdão e a culpa que ficava impregnada nas paredes depois de uma noite mal dormida. Tudo aquilo era o prelúdio do que se tornaria o grande episódio de felicidade de sua vida.

Tomou o último gole, sentiu a cabeça girar, aquele líquido queimando tudo por dentro, as lágrimas quentes descendo pelo face. Ouviu barulho de chaves na porta da frente, se livrou do copo, secou as lágrimas. Sabia que não era ele, provavelmente seu menino chegando de mais uma noite de diversão. Fingiu dormir, sentiu o beijo de sua única fonte de alegria na bochecha direita e e se lembrou da razão pela qual continuava viva.

E apesar de ter tudo, ela só queria mais do que aquilo. Ela queria a intensidade e o desejo de outrora. Ela queria mais, um pouco daquilo que "vivem suspirando pelas alcovas".

domingo, 23 de janeiro de 2011

Fate.


(Sim, não me preocupei com pontuação. O texto foi escrito assim, está aí, cru e nu.)


O vazio daquele dia de domingo incomodava quase fisicamente, era um janeiro excessivamente quente, estranho, modorrento. Doentio. E vazio, especialmente vazio. Como quando tudo em volta se move e mesmo assim não há espaço atingível para se encaixar e se mover continuamente ligada à engrenagem. Era aquela falta de movimento que a tirava do sério, não se encaixar, não se mover, não entender a engrenagem e o medo de que com isso não fosse mais. Ser é muito importante.

Havia constatado há muito tempo, durante uma de suas jornadas interiores em busca de autoconhecimento, que para ela não adiantava enlouquecer, era pessoa lúcida. A lucidez era sua inimiga a esse ponto. Sem possibilidade de mudanças quanto a isso. E mais ainda, não havia nem o interesse por narcóticos, alucinógenos ou qualquer substância que a removesse da realidade. Mais uma vez a lucidez a dizia que destruir seu único meio de suportar vida paulatinamente não traria nada de melhor. Absolutamente nada e além do mais gostava do seu cérebro assim do jeito torto que ele era. Nunca foi daquelas que entendem a perda total de suas faculdades normais como um prazer inigualável.

Na verdade, ela sabia que estava atingindo um ponto na vida em que não iria muito mais longe, as coisas seriam daquele jeito. O vazio, o estranho, a falta seriam seus companheiros. E por mais que se afastasse deles enquanto sorria para outras pessoas, fizesse algo de bom para alguém, desempenhasse tarefas corriqueiras ou se distraísse com algum paliativo, no final do dia era com eles que ela iria dormir.

Todas as vezes que conversava com eles, parecia ouvir sempre a mesma coisa: “Você pode lutar, crescer, tentar mudar as coisas, mas de certa forma você não pode mudar tudo sozinha. Transforme seu ser, se assim lhe apraz e talvez encontre um lugar mais confortável para viver. E entenda que lá é o seu lugar, irás sozinha e permanecerás sozinha.

Resignar também é preciso.”

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010






Robbie:
Dearest Cecilia, the story can resume. The one I had been planning on that evening walk. I can become again the man who once crossed the surrey park at dusk, in my best suit, swaggering on the promise of life. The man who, with the clarity of passion, made love to you in the library. The story can resume. I will return. Find you, love you, marry you and live without shame.


Cecilia: I love you. I'll wait for you. Come back. Come back to me.




[Still want to believe it is not impossible to feel this way.]

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

e.e. cummings


Dia desses em uma aula de Literatura Americana me deparei com um poema que me deixou encantada, pela delicadeza em traduzir sentimentos tão sutis. Me deixou com aquela impressão de 'bem sei como é me sentir assim'. Deixo o tal poema de autoria de e.e. cummings (em minúsculas, como o poeta assinava) e sua tradução para que possam apreciar.

O original:

somewhere i have never travelled,gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously)her first rose

or if your wish be to close me,i and
my life will shut very beautifully,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands

A tradução:

nalgum lugar em que eu nunca estive,alegremente além

de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado,eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas

( Tradução de Augusto de Campos)


P.S.: É interessante reparar na forma peculiar do poema. Era exatamente assim, sem seguir regras ou métodos clássicos, que cummings escrevia. Do seu jeito.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010



"I'll pretend that I'm kissing
The lips I am missing."

Disse 'eu te amo' e desligou o telefone. Encontrava-se do outro lado do mundo o seu bem mais precioso.
'Tanta sorte', pensou. Lembrou da música da Marisa Monte, 'entre tanta gente chata e sem nenhuma graça', ele veio.
E agora estava tão longe. Olhou pela janela, notou a beleza da paisagem e o caos exterior que impera na cidade. Pessoas confusas passavam lá embaixo na rua e não percebiam que no 12º andar ela esquecia o trabalho em cima da mesa, ainda sentindo o pulsar do coração que com ela não estava.
Existe uma ternura tão discreta em amar que transforma tudo em primavera. Primavera dentro dela. O peso da espera sempre dói, mas o que é a vida senão a doce espera que precede o desejado enlace nos braços do amado?
Um dia ele volta. Ele volta. E traz consigo todos os sorrisos do mundo.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Glacial




"You're not allowed
You're uninvited
An unfortunate slight."

Tocava "Uninvited" da Alanis Morissette enquanto a chuva caía torrencialmente na rua. Dentro de casa, no conforto do mundo particular, ela se torturava:

"Não! Não! Você nunca entenderia. Eu e você nunca vamos ficar juntos."

Ah, a dor aguda do desamor. O ter e não ter. Como admitir para o mundo aquele amor infindo que nunca seria dela? Aquela dádiva em forma de gente que insistia em enlaçá-la em seus braços como se fosse uma criança que precisa de cuidados. Como aceitar esses cuidados que se resumiam em preocupação fraterna?

"Não, você nunca entenderia como esse amor nasceu. E como ele vive."

Num arroubo de paixão e agonia atravessou os portões de casa e foi parar na rua. Sentindo a chuva lavar seu corpo, o peso daquele sentimento em seu coração, o sangue correndo nas veias como a lhe dizer que desperdiçava algo deveras precioso. Pensava nele com tal intensidade que não sabia mais como controlar as lágrimas que desciam sem cessar. Amaldiçoava o dia em que o conheceu olhando para o céu cinza e mesmo assim sentia que sem ele nada fazia sentido.

"Como posso te dizer isso que se passa em mim se você não quer saber? Como posso te mostrar esse amor que você não quer pra si? Como posso arriscar perder esse ínfimo pedaço do seu ser que sem saber você me deu?"

Era uma escolha dura. Se o amor não dói, isso que ela sentia, que ela pulsava, era o que mesmo?
O que escolher? O sofrimento silencioso, os ouvidos emprestados a ouvir histórias que machucam como punhais cravados na pele, os sorrisos falsos, estar ciente de que os abraços são dela, mas os beijos de outra ou a verdade dita, o distanciamento necessário, da mesma forma o sofrimento? Abruptamente, a decisão tomou corpo e infiltrou-lhe os pensamentos.

"Não. A verdade não é permitida. Não me é permitido espalhar esse desgosto que trago comigo. A cada dia cabe seu mal, a cada um cabe suportar seu fardo de dor. E essa dor, assim como esse amor, é minha."

Calmamente retornou ao seu quarto, desligou o rádio, sentou na cama, parou de chorar. A chuva também parara, a noite esquentava do lado de fora. Não eram as roupas molhadas que lhe esfriavam o corpo, nela algo perecera. Encarava a parede e sentia que tudo era inverno agora.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Brevecontomelancólico





"
Quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui."
(Legião Urbana)



Tinha um jeito assim meio misterioso de ser, expressões que não denunciavam nenhum dos pensamentos que perturbavam sua cabeça e um andar de quem já cansou de perambular em vão pelas ruas da cidade sempre cinza. Os ombros não eram caídos (o que alguns diriam ser efeito de um pedantismo inato), mas os olhos, apesar de não admitirem muito do que se passava com ele, mostravam que ali enterrada em seu coração, morava um tipo de tristeza mórbida e traidora. Apesar de tudo, mal saíra da adolescência, estava na casa dos vinte anos e se sentia com mais de cem.
O que mais incomodava era não conseguir atribuir algum sentido à vida. Sentia que não pertencia àquele mundo onde tudo que defendia era condenável ou aparentemente (apesar de não verdadeiramente) descartável. E não pertencia mesmo à corja de materialistas e superficiais que habitam o orbe planetário. Ele era diferente, se encontrava no nível dos indagadores, das mentes que pensam e por isso se sentia cansado dos efeitos que as conclusões acerca da realidade produziam nele.
Tristeza, depressão, fadiga. Queria poder encontrar repouso em braços amigos, serenidade em um sorriso, mas reconhecia que a falta de traquejo social impedia que alguém tentasse quebrar a couraça que ele mesmo criou em volta de si. Esse não-pertencer ao mundo, às coisas, à realidade era como uma faca permanentemente cravada em seu peito, impedindo seu coração de bater.
De certa forma, alguma culpa tinha nisso tudo, admitia que a constante percepção do negativo havia lhe cegado de tal forma que agora não se permitia ver o belo. No entanto, o que era bom, o antídoto para toda aquela agonia cabia dentro da caixinha que ele chamava de coração. Bastava um impulso para que seu despertar acontecesse, mas ele não via isso. Ninguém é capaz de enxergar quando o remédio para sua doença é você mesmo.
Escondida em suas lágrimas estava a resposta para seus anseios e tal resposta recebe o nome de aprendizado. Com o tempo, as expectativas da mocidade foram dando lugar às certezas da maturidade. O menino deu lugar ao homem e a necessidade de calor lhe tomou o ser. Ele se permitiu crescer, amar e até colher os frutos das decepções.
Sua paz lhe alcançou quando ele quis ao perceber que os percalços ruins da vida assim como os momentos de alegria são efêmeros. O que fica é somente o que construímos no durante. Seus olhos mudaram, não continham mais o retrato da melancolia, eram agora confiantes, cheios daquele brilho que não se rouba, pois é conquista do ser.

domingo, 27 de junho de 2010

Deseo.



"(...) guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo."
(Caio Fernando Abreu)

Doses homeopáticas de desejo, carne, pele. Um revertério gostoso no estômago, tão diferente das famosas borboletas, pois não era um gostar transcendental. Era apreço. E querer. Querer tomar pra si aquele outro ser e se misturar num balanço musical de carinhos e sentimentos prazerosos. Coisas que a lembravam que não estava morta, que existia dentro dela aquela fúria reprimida das mães-mulheres, mulheres-esposas, daquelas que não podiam se desvencilhar de suas gaiolas douradas, bonecas imutáveis, modelos irreparáveis. Tudo o que ela nunca seria.
Mas havia o temor de que em breve, a vontade de estar ali, na companhia do outro desejado se transformasse em algo maior. Em algo que dói. Em algo que ela não queria. Que ela não conhecia direito. Que não se apresentara direito em nenhum momento de sua vida. Em algo que faz falta.
E isso tudo não acontecia bem no plano real, muito mais dentro dela. Não havia nada de concreto, a não ser por aquela tensão que pode ou não ser desvendada, descoberta, como quando se mata a sede por muito sentida. Era a presença daqueles olhos que despertava tudo isso. E o toque das mãos, por vezes acidental, outras vezes nem tanto. Uma vez houve um par e uma dança interminável. Um giro que girou o mundo dela.
Ao certo, nem ela sabe se os limites foram cruzados (por ela) e se as doses homeopáticas já não são mais suficientes, pois as borboletas moram em seu estômago agora. Talvez ela saiba, mas dói demais admitir, mesmo que seja apenas para seu travesseiro, quase sempre molhado de lágrimas salgadas.
É melhor seguir a caminhada.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Uma utópica possibilidade?

Muitas vezes me pego pensando se isso que eu desejo e que falta em minha vida tem nome, pois tem sido bem difícil nomear essa coisa que habita em mim. Quando somos adolescentes não é tão difícil assim, geralmente os pensamentos sobre a sobra da falta começam com - namo e terminam com – rado. Oras, na-mo-ra-do, item essencial na lista de qualquer mocinha!
Com o passar dos anos a coisa começa a ficar mais complicada, afinal arranjar alguém disposto a te dar uns beijos e te levar pra passear não é exatamente só o que queremos. Somos jovens mulheres do século XXI, lutamos por nossa igualdade perante os homens até hoje, mas ainda assim fomos criadas ouvindo historinhas da Cinderela e vendo Hugh Grant e Julia Roberts sendo felizes para sempre na tela do cinema.
Então, estarei eu dizendo que a vontade de compartilhar a vida com alguém é algo cultural imposto pela sociedade patriarcal, ou seja, um absurdo machista? Para falar a verdade, bem que eu queria que fosse! Assim, me sentiria menos estúpida quando tento fazer as pessoas acreditarem que não ligo de estar sozinha no dia dos namorados e jurando que acho ridículo celebrar o amor a dois de forma tão capitalista e comercial.
Acho que no final do dia, quando coloco a cabeça no travesseiro na minha cama de solteiro, eu sei bem o que me falta. Falta alguém pra compartilhar tudo o que passei durante o dia que se encerra, alguém que ouviria minhas alegrias e enxugaria as minhas lágrimas, caso elas viessem a cair. Alguém que me chamaria de “meu amor” e me contaria tudo o que se passa em sua vida, pois me consideraria sua melhor amiga.
Um homem que me envolveria em seus braços quando eu precisasse de colo ou simplesmente de um carinho pra acalmar meu jeito de menina dengosa. Um menino que me pediria cafuné naqueles dias em que brigou com o chefe ou de quem eu cuidaria quando estivesse com febre.
Falta na minha vida o que falta pra maioria das pessoas com quem já conversei sobre isso, não é algo isolado, não é uma doença. É uma necessidade. Não pedimos por um amor eterno, na realidade nem sabemos se isso existe, o que pedimos é simples: uma possibilidade. Uma possibilidade de ser feliz e de fazer alguém feliz. Agora, se durará um mês ou cinqüenta anos, pouco importa. O que importa é fazer valer à pena.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

É tão estranho se ver na companhia do silêncio de seus próprios pensamentos. Quando todos os questionamentos mais graves foram respondidos, quando tudo a sua volta não passava de ilusão e o alívio da resolução encheu sua alma de forma apaziguadora, então o que te resta? Será que resta algo além do silêncio?
A alma silenciosa não pode ser menos angustiante do que a alma em turbulência. É difícil lidar com o futuro quando ele é uma página branca, é mais fácil entendê-lo quando ele é feito de sonhos ilusórios porque naquele momento ele mesmo não era uma ilusão. Não para você.
E o que resta fazer com a página em branco? Escrever, talvez. Ou deixá-la em branco. Há quem acredite em destino, há quem acredite em força de vontade e há quem acredite na vida.
Talvez ela, a vida, se encarregue de preencher essa página e todas as outras que estão por vir.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Pra me conquistar...
Martha Medeiros

Pra me conquistar
basta dizer tudo aquilo
que nunca ouvi de ninguém
vestir como homem e não como gay
me tocar sem medo, sem segredo
entrar e sair da rotina sem que eu note
me levar para lugares exóticos
e lugares comuns
saber ficar em silêncio e assim me dizer tudo
gostar de rock como eu gosto
e de coisas que eu não gosto
compreender a vida como é
e buscar o outro lado
saber a hora exata de ficar
e ir embora
mas não vá.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Quero. Não quero.
Desejo. Não desejo.
Louca. Lúcida.
Viva. Morta.

Ela passeava por seus paradoxos e antíteses como quem se regozija ao sentir a chuva gelada bater no corpo.

E isso lá importa? Pensar demais acaba por destruir as coisas. Ah, a gente pensa muito, grita muito, reclama muito e vive pouco. Sente? A gente sente?
Não estou para ninguém hoje, estou para mim. A minha única companhia, a minha melhor amiga, eu mesma em meu esplendor. Independente do mundo, sem depender do mundo para me ver.
Nós, mulheres, somos como a própria natureza, sabe? Nascemos belas, pelo menos, de algum ponto de vista. Nos desenvolvemos. Somos machucadas, feridas em nossa beleza e novamente encontramos um meio de sobreviver. Todas as vezes.
Então, pra que querer ser algo que não sou? Olha que dádiva, eu sou uma mulher! Eu posso ser o que eu quiser. Eu posso ser atriz, bailarina, professora, secretária, escritora. Eu posso ser amiga, namorada, mãe. Eu posso gostar de meninos. Eu posso gostar de meninas!
E por que não? Por que não gostar de meninas?
Ah, é porque deveras eu não gosto de meninas. Talvez seja esse o motivo da tristeza toda, gostar de meninos.
Mas hoje, ele que vá para o inferno!


Hoje eu sou minha!

E continuou a caminhar enquanto as gotas geladas batiam em sua face. Foi a melhor tarde possível, foi a tarde dela. E depois disso, nunca mais ela se deixou pensar nas feridas que motivaram "a sua tarde". Como um elemento da natureza que era, sacudia as cinzas para que elas caíssem no chão e sobrevivia. Cada vez, mais bela ainda.

domingo, 12 de julho de 2009

Yeats


Se tem um poeta que eu realmente aprecio é o irlandês W. B. Yeats. O poema que segue é um dos meus favoritos.
Um dos temas com o qual Yeats lidou foi a continuidade do amor, mesmo que não-correspondido, ao longo dos anos.
Não preciso escrever nada vago sobre a velhice e o amor, prefiro que Yeats fale por mim. Afinal, ele o faz bem melhor do que eu.
When you are old
When you are old and gray and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;
And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how
Love fled And paced upon the mountains overhead
And hid his face among a crowd of stars.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Human.

É incrível, ela era incrível. Uma fortaleza e tão frágil. Louca em sua sanidade e sã em sua loucura. Uma atriz, mas tão sincera. E era a única que não enxergava isso.
"Não importa o quanto você impressiona quem não importa. O que importa é que mesmo sem tentar, você é admirada por aqueles que admira."
Ela tentava se convencer disso todos os dias.
E todos os dias repetia pra si mesma: "Quanto mais eu sangro, meu amor, mais sangue eu tenho pra dar."